Desatino





Na poesia me vaga a alma chilreante
Carregando um verbo mudo
Prostrado diante da imensidão de Deus
Num quintal escuro deslumbrante
Arraial de estrelas zombeteiras
Esperando um não-sei-quê...
Destino ou disparate

Girassol em órbitas



Se meus olhos vissem
Apenas aquilo que alcançassem
O quê seria dos sonhos e miragens,
O quê seria da lua e estrelas,
Planetas refletindo sóis...
Uma montagem num céu negro
Flutuando num vácuo infinito
Num espaço inteiro desmedido
Ai amor, o que será de nós?
Quando fecho os olhos
Nem a alma, nem lençóis
Enxugam teu silencio...
Que acompanha pensamentos
Contemplação de um girassol
Vislumbrando contentamento
Devagarinho virando o rosto
No negro movimento do desgosto
Seria essa nossa sina...
Dessa maquinha universal
Agora contando ciclos
sem saber qual será o dia
O Sol e a Lua em alinhamento
Acasalando a noite com o dia
A clara razão desmedida
A órbita de um amor absoluto
Era como o milagre da vida
.
.
.
E no entanto somos tantos...

Amar, elos perdidos

Somos feitos assim
De todas as miragens
De todos os milagres
Todas as covardias
Ovos-diamantes de casca fina
Pura clara, simples gema
Dos elos do amor duro, duro
Como um caroço no meio de um cometa
Procurando planeta para fecundar

Ativo amor maduro

Do amor que sinto
agora pedra bruta, granito
Encrostado, curvo e coberto
Consolidado, embrutecido
Amor maduro, mudo, muito

Assim é o amor, doído.

Do amor que sentia
era água viva, líquida
Cabível, volúvel e flexível
Volatil, evaporado
Amor imaturo, fraco, muito

Assim era o amor, passível.

Olha-me

Olha-me com olhar noturno
Com um sorriso deslumbrante
Do tempo que te deixou madura
Com fissuras no semblante

Mira-me com fome e medo
Como se escondesse uma fortuna
Aclarada lendo minha mente
Como a vela que te fez ser santa

Veja-me como se eu fosse monstro
Encenado num espetáculo dantesco
Evitando ser vista publica mente

Fita-me com olhares indecentes
Que do gosto da minha boca lembrado
Morde os lábios docemente

Imensurável Silêncio

Nos meus versos vejo mundos
Uma imensidão de sentimentos
O sangue que corre moribundo
Nas veias poéticas de um momento

Dos meus versos tenho medo...
Não sei quem sou em tercetos
Em métricas imensuráveis
Perco a conta dos receios

Com meus versos fico mudo
Cala-me a boca um verso branco
Como a neve sobre túmulos, me explico

Defunto sem a rima que me vaga
Da força do silencio que afaga
Deixando de ser gente, sou espirito

Poço seco




Moço, a dor é minha amiga
Sempre lembrando da magia
Do que é vida sentida
Mesmo que afligida
A dor é minha amiga

Moço, a solidão é companheira
Sempre muda e verdadeira
Daquilo que esvazia
Mesmo que mal dita
Também é minha amiga

E a falta do que era
Ou mesmo do que poderia
Ter sido ou acontecido
Com o coração amortecido
Não sei se bate ou se é batido
A dor e solidão me dá sentido
Lembrando-me que ainda vivo

Minhas Velas

Num mar estranhamente calmo, um pensamento
Uma caneta em linhas retas sem palavras
Meu barco à velas sem o amor do vento
Na serenidade das dimensões da alma

Quem sabe se no próximo verso
A tranquilidade da idéia soçobra
E venha tempestade de um coração inquieto
Revoltoso com as ondas da memória

Sopra as velas verso meu, num soneto
Nas nuvens formadas pelas lágrimas
Movimente minha nau num espavento

Que eu me encontre logo um continente
Longe dessas ilhas solitárias
Pensamentos num mar calmo, estranha mente.

O matador de sonhos

Entrando no teatro dos sonhos
perdido entre a realidade e os desejos
Minha alma voando...
Como um beija-flor metálico
Um anjo de asas prateadas
Assanhado entre as estrelas violetas
Flutuando nas nuvens carregadas de ions
Que chovem-se em átomicas tempestades
Na agua lúdica que escorre
por entre os dedos das mãos de Deus
Vou bebendo e me banhando...
Até quando acordo com o grito estridente
de um despertador cruel e impaciente.

Plantas, mudas, se mentes

O amor que me brota

hoje é trepadeira

havia um tempo

que eram rosas e margaridas

das pétalas que eu comia

me era doce à língua...

elas que me viam o branco dos dentes

sabiam que de nada fingia

daquele sentimento presente

lembrando do passado e de espinhos...

o que será que vem pela frente?

Cúmplices

Somos extremos da mesma minhoca
Uma dessas hora eu vou,
outra hora é você quem volta

E na maçã do mundo
Enfiamos a cabeça fundo
Tendo a certeza
Que ninguém nos veja

Descamando tesouros
Que o valor destes
Só a nós importa.

Verbo Negar


Me negarias em três versos
Antes de um verbo sincero
Antes da sóbria medida
à métrica da poesia

Antes que a rima encante
No fundo da noite vazia
Um soneto cercado de espadas
Abrindo de um beijo a ferida

Então me leve à custodia da arte
E os temas inibidos apartem
No negrume da tinta noturna
Que os textos sagrados nos salvem

Publicasias

Eu não escrevo poesias ou poemas
Meus textos ao esmo, crestomatia
Estórias que conto pra mim mesmo
Enquanto minha alma espera
Pela carne que envelhece
Nessa idiossincrasia

Uma coleção de infortúnios
E notórios sucessos tímidos
Assim publico minhas antologias
Crónicas então ?!
Não!

Publicasias

Eu voando

Hoje acordei pesado
Com alma-granito
Doendo uma dor aguda
querendo a calma no peito
Que só a poesia revela


A gravidade da corrente
Onde é a carne que sente
A falta das asas,
à calma da mente
E os pés juntos, grudados
Em chão-solidão


Hoje acordei gigante
Com a alma descabida
Escalando meus penhascos
Nas montanhas internas
O fundo do meu infinito
O tamanho do meu "Eu"
No centro do meu universo
Buraco negro do meu umbigo
Um alter-ego tímido.

Sobras

Teu calor
Tua tez, tua cor
Tua palavra muda
Um perfume pro meu nariz
Na boca, um gosto dos beijos
De uma boca que ainda não conheci
Des-calor da mente fria
Tua cerca, que me cerca....
Dentro, fora, alto, baixo e santo
Tudo o que nos une são as palavras
E se separar, e se dividir as palavras...
O quê sobra?

Ex-calando

Nesses dias escuros de tinta negra
Minha caneta fala mais alto que minha boca
Onde coleciono calos nos dedos
Ainda que minhas palavras são raras
Minhas mãos se esforçam...
Mas a boa intenção que me sobra
Esbarra e condensa na gramática
Então escalo a montanha sensibilidade
E gosto de versos dançam na língua.

Título Ausente

página esguia
verso magro
tema negro
triste poesia

métrica indecisa
rima seca
caneta tonta
descolorida

mente opaca
força entranha
alma muda
antagonia


falta alegoria
nessa intriga
árduo enredo
sem fantasia

se me perguntas
porque a agonia
com ela ausente
esvai-se alegria.

Michael

Uma alma que não cabia.

Prosa da vida à penas





Sim,
Como acólito,
Sendo da mais elevada,
Das ordens menores de uma vida,
Eclesiástica.

Eu não,
-- Não era pra ser gente...

Caindo aqui,
Aqui nesse planeta inteligente?
Esperando um ônibus ou foguete
Um daqueles noturnos,
do último da noite solidão

Eu sim,
-- Sim era pra ser cometa...

Ir lá,
Acolá da esquina imensidão
Esperar por algum outro monolito
Que seja de gelo, sal ou granito
Que conte estórias
De um universo insólito

Então não me fale de paraíso
Ou inferno como o sol e o juízo
Se vivemos pelo inferno gerado
Pelo Sol enternecido
Que se consome a si mesmo
Para dar vida nesse terreiro

Fale-me de um Cristo perdido nesse puleiro
Uma Terra cheia de aves fomentas
Que não sabe de nada além do umbigo
De bico esguio dado para que não engasgue
Comendo mais do que o permitido
Com aquilo que seja apenas semente ou grão

E o que me roi por dentro, explico não...

Porque nem eu sei
Sei que não é fome,
Sei que não é fé,
Sei que é um vão,
Por ter nascido gente
E gente quero ser não.

Morto de sede


Na árdua colina, uma árvore morta
retorcida pelo sol e vento forte
não aduza minha morte nesta hora
quando a vida enfada casca sorte

bruta árvore desse choro macilento
vê minha lamúria que vou ruminando
e doi e seca tudo aqui por dentro
na falta d'água enquanto verso meu lamento

roçando longe, estranhos bicos de montanhas
minha nuvem que se aparta no horizonte
que não sabe da secura das entranhas

últimos versos soçobram deste pranto
deita corpo meu, sê colado ao tronco
seja árvore morta, contente-se ao relento.

Equinócio

Quando me fazes um beiral sem ninho
Da fala mansa pelo que é sucinta

Racha min'alma de tanto que apascenta
Anoiteces e dormes um coração menino

Veja amor que a brava fera cansa
Sorvendo beijos de um delicado alento

Estrelas cobiçam nossas vidas humanas
Assistem o espetáculo desse momento

Então como me deixaria nesta hora amor
Faria que os dias fossem como noites

Contornando a linha do equador
Se não por mim, pelo Sol, amor

Invoco aos planetas pelo espaço lento
Testemunhas de um grande amor congénito

Que fumeja de fogo e desejo
E une versos nesse movimento

Soneto ao esquecimento

O peso de tuas palavras amor, das que tinha;
Como uma cena pungente, uma tragédia de ais,
Despejastes em mim como um poema dantesco,
Consumindo alegria dos meus temas cabais

Ai amor este roteiro sem coadjuvante,
Virou um monólogo penoso brevemente,
De ator principal à mero figurante,
Calou-se minha fala decorada tristemente,

E abriu-se as cortinas para o espetáculo,
Encenava um arlequim de variegadas cores,
Com borrada maquiagem de um ato apático,

No meio do palco, um pierrô traumatizado,
Silencioso me fizera avesso ao discurso,
Quando a platéia zombava desse pranto profundo.

Se espaço não fosse essa grandiosidade

Se espaço não fosse essa grandiosidade
Eu dobraria como um origami
Faria um passarinho só pra ver ele voar

E quando ele voltasse pro ninho
Se reveleria a grande verdade
De que Deus é um molequinho
Que pula, brinca e dá piruetas nos ares

Quando a gente entende e aceita o que é verdade



(* mote de André Luis Fernandes)

Soneto Infiel

Das relíquias e sudários que resguardo
De lembranças, de memória de seus lábios
Faço um santuário de velas no prebistério
Em que venero em dias secos e piréticos

Dos rosários que ainda guardam o mistério
As catequeses de um querer santificado
Proclamo à renúncia de um grande ministério
Porque peco pela dúvida de um amor sacro

Ai meu amor que sou tão fraco
Que não confio nos sonetos e seus tratos
Penitentes sentimentos atribulados

Ah valei-me um anjo ou qualquer santo
valei-me um verso ou qualquer salmo
Misericordia amor, nesse meu pranto.

Incógnito mistério poetico

Este segredo, que é o mais secreto do universo vai estar
dentro de uma obscura, microscópica, nano-partícula,
da sub-atómica matéria de propriedade quántica,
dentro de um inexorável buraco negro,
anuviado por anti-matéria,
à trilhões de anos luz
distante de alguma
quinta dimensão,
de uma galáxia
transcedente
entre outra
realidade
paralela
escrita
noutra
poesia
......
.....
....
...
..
.

Djavan

Trilha sonora
para poesia.

Para os que querem amar

Preparem as cordas
as asas, as forças
e as facas

é louca a inalcançável felicidade
a parede é ingreme
dura e alta

e a ave do amor, mata-a
porque se assim não fizeres
virá com suas garras
e aos fracos fere
então agarre


use as asas para transpor
use as facas para o amor
use as cordas para amarrar a dor
e a força para sobreviver.

Amigo secreto

Quem ama em segredo
Morre não
prolonga o sofrimento
faz da vida um cão

Quem ama em segredo
Vive não
prolonga a agonia
na compania de um cão.

Quase um soneto na praia

Hoje, na praia de amores perdidos
Ando e escrevo versos na areia
Sustento de um gosto salgado na boca
Da falta, de saudade e desespero

Não tentei construir outro castelo
Pra fugir do sol que me queimara
Se o primeiro castelo era teu
Em que até sombras de beijos deslumbrava

Queria estar noutra praia e lembrar
De tantas palavras doces que me falava
Mas agora são conchas vazias do amar
Quando perdem suas pérolas raras

Naquela praia que agora está deserta
Não se vê mais nossos versos e pegadas
Apagaram-se nas ondas do mar do amor
Que um dia docemente nos banhara.

Mel-Aço

Se alguém me queira
Queira também os meus defeitos
E a esses queira primeiro
Porque depois da casca-ferro
Depois do feldspato, da mica, do duro quartzo
Venha abrir o meu couraço
Sabendo, se sou mel ou asco

Veja bem como sou áspero
Vim da pedra negra e dura
Sê sensível ao maltrato
Que espante à bruta natura
Quão sólido sou e se isso é fato
E saiba, se sou mel ou aço

Se alguém me queira
Queira também os meus maltratos
E esses queira de fato
Para que quando venha o doce
E o vento norte do cangaço
E se perca do fruto o caroço
Provando se sou mel ou aço

Mas depois da casca dura
Vem amor, vem pra candura
Essa coisa que é compacto
Vem proteger o que é doçura
Do mel silvestre, do engaço
Vem amor, vem pro melaço

E agora que já não sou espesso e duro
Deixei de ser maciço e bruto
Mostrando que sou doce e jocoso
Vem amor, vem pra teu gozo
Que já te abraço e nesse enlaço
Vem amor, vem pra meus braços.